Do Sobreiro para a Bolsa
Hoje abordo a conhecida Corticeira Amorim que chegou a meio de Dezembro à Média Móvel de 200 meses (cerca de 16 anos e 8 meses) de 6.56€. Este é um dos alertas que tenho nas plataformas para avaliar empresas com pensamento de investimento a longo prazo, para validar se existe nível de suporte no preço.

Mas antes vou dividir a minha opinião em 2 artigos para reforçar a teoria do Mohnish Pabrai’s onde uma tese de investimento deve ser tão simples que conseguimos explicar o porquê da compra em 4 parágrafos a uma criança de 10 anos. O primeiro artigo é sobre conhecimento e contexto, e o próximo será sobre os números financeiros, tabelas e gráficos.
Antes de investir seja no que for, é necessário saber e conhecer a fundo o que está a comprar:
- O que faz a empresa?
- Quem são os seus clientes?
- Como gera dinheiro?
- Quais os seus riscos e/ou vantagens no mercado em que opera?
- Se tem uma vantagem competitiva (MOAT) perante os seus pares
As acções portuguesas do PSI20 têm sempre uma dinâmica diferente das acções europeias ou americanas, sendo fortemente focadas em retornar dinheiro aos seus acionistas em forma de dividendo e não em forma de crescimento do preço. Por vezes existem excepções quando algo forte no mercado acontece como aumento da GALP em 20% na descoberta de um novo poço de petróleo ou queda de 12% na Mota Engil na demissão do primeiro-ministro António Costa, mas foram casos muito pontuais. O nosso PSI20 é fortemente caracterizado por pouca volatilidade, empresas estáveis mas fraco crescimento.
A Corticeira
A minha análise da Corticeira Amorim, tem um sentido patriótico porque é uma empresa histórica portuguesa, com números financeiros interessantes mesmo sabendo de antemão que o seu retorno é mais baixo do que o ETF VWCE.
Uma das vantagens em comprar acções da Corticeira é que acaba por existir a sensação de proximidade da empresa, de nos identificarmos mais, de ouvir falar mais frequentemente nas notícias, ver nos outdoors de publicidade, nos produtos numa prateleira de supermercado ao invés de uma empresa americana. Na realidade não estamos a falar de uma grande percentagem no meu portfólio mas faço questão de ter uma acção portuguesa. Tenho bastante interesse no que ela representa para a nossa economia visto ser das maiores exportadoras e acima de tudo gera dinheiro com um recurso natural muito português.
A Corticeira Amorim é a empresa líder mundial na produção, transformação e comercialização de produtos de cortiça, com uma quota de mercado global a rondar os 30% com uma uma posição oligopolista no mercado da cortiça, e que exporta 90% dos seus produtos.
O seu core business é 100% cortiça, mas a empresa não tem um foco exclusivo num único produto. A Amorim está activamente diversificada em quatro grandes áreas (Rolhas, Pavimentos, Compósitos e Isolamento) para optimizar o consumo de cortiça e mitigar o risco do negócio Rolha para as bebidas. Portugal é o maior produtor de cortiça do mundo, responsável por cerca de 55% da produção global, liderando incontestavelmente o mercado, seguido de Espanha com 20%.
A Corticeira Amorim não só gere o mercado secular da cortiça com o seu controlo da matéria-prima, como também é responsável pela inovação ao investir continuamente em tecnologia que redefine o padrão de qualidade e sustentabilidade global de todo um sector, sendo assim no meu entender uma empresa única no contexto da bolsa portuguesa.
A Família Amorim
A Corticeira Amorim personifica a sólida tradição empresarial portuguesa. Fundada em 1870 no seio da Família Amorim, a empresa é o maior expoente de um modelo de negócio que constitui a espinha dorsal da economia nacional, ecoando a importância de outras dinastias empresariais como a Delta (Nabeiro), Sonae (Azevedo), Pingo Doce (Soares dos Santos), CUF (Mello) e Grupo Semapa (Queiroz Pereira). Esta tradição não é exclusiva de Portugal; a nível europeu, encontramos exemplos notáveis de sucesso familiar e longevidade, como a Louis Vuitton, BMW, Hermès ou a Michelin. Quando compras ações da Amorim, estás a tornar-te “sócio” de uma das famílias mais ricas e bem-sucedidas de Portugal e os seus interesses estão totalmente alinhados com os teus, que a empresa que dure mais 100 anos.
As empresas familiares cotadas demonstram frequentemente características de investimento altamente atraentes, diferenciando-se pela sua prudência financeira, pela visão de longo prazo na base das suas decisões, pelo alinhamento dos interesses de todos os acionistas e por uma cultura empresarial distinta e duradoura. Esta filosofia contrasta vivamente com o ambiente nos mercados dos Estados Unidos, onde a grande pressão capitalista, a exigência de crescimento contínuo de dois dígitos e a pressão nos resultados trimestrais dominam as cotadas em bolsa.
No caso específico da Corticeira Amorim, a família detém cerca de 70% do capital (o restante está 15% em grandes fundos de investimento e o restante 13% em free float no mercado bolsista). Esta estrutura de controle robusto garante que a empresa seja regida por uma política financeira historicamente prudente e conservadora, fundamental para atravessar diversos ciclos de mercado e garantir a longevidade da liderança. Esta visão familiar é crucial para a sustentabilidade do negócio base: as decisões, embora possam parecer defensivas, são essenciais para o negócio secular da cortiça.
Como a quantidade de ações disponíveis para comprar e vender no dia a dia é relativamente baixa, a ação pode ser menos líquida do que uma EDP ou uma Galp. Isto explica, em parte, porque é que o preço por vezes faz movimentos laterais durante meses ou anos.
Matéria Prima
A cortiça é um recurso com um ciclo de produção notavelmente lento e difícil de acelerar: Um sobreiro só pode ser descortiçado pela primeira vez após 25 anos de vida. Após a primeira extração, a cortiça só pode ser retirada de 9 em 9 anos. Este ciclo de produção lento exige que a empresa mantenha grandes stocks de matéria-prima para garantir o fornecimento contínuo aos seus clientes e para absorver picos de procura ou quebras de colheita. A gestão dos sobreiros, que requer décadas de planeamento e a acumulação estratégica de stock, só se torna economicamente viável e sustentável com a visão de longo prazo imposta pelo controle familiar.
A cortiça é um produto ecológico porque o sobreiro dá naturalmente da sua casca e é material bastante reciclado e que é sempre aproveitado com uma taxa muito baixa de desperdício. Nenhuma árvore é abatida para a produção da matéria-prima, tornando-a com um forte foco na sustentabilidade (ESG), transformando subprodutos e desperdícios de cortiça em novos materiais (compósitos, isolamento), garantindo uma taxa de aproveitamento muito alta e um baixo desperdício.
A cortiça é uma área nicho, pois a produção de sobreiros exige um clima bastante específico: invernos amenos e chuvosos e verões quentes e secos. Este clima limita a produção aos países do Mediterrâneo (com Portugal na liderança) embora tenha sido replicado com sucesso na Califórnia, Austrália e África do Sul. A concentração de sobreiros no Mediterrâneo oferece à Amorim uma vantagem geográfica e de conhecimento quase intransponível.
De realçar que a Corticeira também tem as suas próprias florestas e cada vez mais vai comprando mais terrenos para expandir a criação de sobreiros, evitando assim depender sempre de terceiros, mitigando o risco de escassez futura e reduzindo a volatilidade do preço de compra da matéria-prima.
Concorrência
Quando se considera o mercado global de embalagens (tampa/rolhas) e pavimentos para construção, a Amorim é uma empresa pequena mas altamente especializada que controla 65% do mercado.
A concorrência mais agressiva pode vir dos substitutos da rolha como as Rolhas de Alumínio ou as Rolhas Sintéticas. A estratégia para mitigar esta ameaça é posicionar a cortiça como uma opção premium e sustentável em todos os seus segmentos de produto. O domínio da Corticeira é muito sustentado por barreiras à entrada que tornam extremamente difícil o aparecimento e ascensão de novos concorrentes, como o controlo e gestão da matéria prima, domínio do mercado e líder em inovação e tecnologia definindo novos padrões de qualidade.
Um pouco de números
Apesar da diversificação em unidades de negócio (Pavimentos, Compósitos), a Corticeira Amorim permanece altamente concentrada na divisão Amorim Cork (Rolhas e Tampas), que representa cerca de três quartos das suas receitas (70%). Isto significa que a empresa está inerentemente exposta aos ciclos de consumo de vinho e bebidas engarrafadas a nível mundial embora 60% das suas exportações seja para a União Europeia.
Um decréscimo na produção vinícola ou uma mudança acelerada para substitutos afeta diretamente o fluxo de receitas da empresa. Contudo, a gestão tem mitigado esse risco ao posicionar as rolhas de cortiça no segmento premium, onde o valor do produto é crucial para a qualidade do vinho.
Por todos os argumentos que escrevi ao longo do artigo, e antes de estudar os números financeiros, a Corticeira Amorim é uma empresa que me agrada aprofundar, e que pelo menos entra para uma lista de observação de empresas Portuguesas.
Deixo uma provocação como ponto de partida para o próximo artigo da análise financeira detalhada da Corticeira Amorim: Eis o resultado de 1.000€ investidos desde 2019, contrastando o seu Retorno Total (com dividendos reinvestidos) com o desempenho de um índice mundial.
| – | Corticeira Amorim | ETF VWCE |
| Desde 2019 | 1300€ | 2050€ |
| 1 Ano | 1120€ | 1200€ |
| 3 Anos | 1150€ | 1350€ |
| 5 Anos | 1250€ | 1800€ |
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